quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Nada e tudo

Estamos no tempo do querer
Estamos na era de mandar
De exigir de tudo mais um pouco
De passar por cima de matar

Nada há que não tenha uma etiqueta
Nada há que não se não seja para vender
Ninguém se detém só com um desejo
Não tenho isto agora, mas vou ter

Temos pouco e queremos muito mais
Temos nada e queremos quase tudo
Tememos não ter para invejar
Tememos não poder comprar o Mundo

O que nos passa ao lado é tudo, é nada
Aquilo que sentimos já nem conta
Da vida só queremos o que compramos
Fizemos da nossa vida uma montra

De todo lado chegam ameaças
Esquecemo-nos da vida, de viver
Devoramos o consumo em cada passo
Não tenho isto agora, mas vou ter

Isto também se está a passar comigo
E sinto que não consigo evitar
Dou comigo a querer comprar o Mundo
A passar por cima. A matar

Pausa

Está calor. Não corre vento
Tirei dos ombros o agasalho
Estou bem nesta varanda a escrever
Como se este fosse o meu trabalho

Tudo está calado, até o tempo
Não se houve o que seja, nem o ar
Também eu respiro em silêncio
Também eu parei a divagar

Devia escrever algumas umas linhas
Mas agora também eu já me acomodo
Deslumbro-me com toda esta calma
Desfruto do momento. Também gozo

Há folhas quietas, sem vida
Bichos que se instalam em descanso
Estamos todos juntos nesta pausa
Não oiço nem falo ou sequer penso

Queria resgatar esta brandura
E porque não desenhá-la em palavras
Marcar este instante para memória
Mas não o faço o texto tarda

Também as nuvens estão paradas
Tudo cristalizou à minha volta
As janelas estão fechadas
Não cão nem gato que se mova

Vou ficar aqui a degustar
Este hiato ao qual agora me prendi
Se tudo isto aqui ficar
Eu ficarei também. Morri

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Poema pedido

Pediram-me um poema sobre ti
Eu não podia ter outra reacção
Escrevi, porém, um texto que não conta
Nem metade do que me vai no coração

Estas coisas não se fazem de encomenda
Estes versos nascem sem pedido
Já há muito que te escrevi tudo na cabeça
E agora nada disto faz sentido

Acedo a escrever alguma coisa
Mas qualquer palavra sabe a pouco
Só queria de ti mais um abraço
Só queria sentir de um simples sopro

Estava à espera que uma luz se me acendesse
Contava ver-te um dia e falar-te
Mas tu já não queres qualquer conversa
Foste sem o adeus de quem parte

Resta-me a tua imagem, e as lembranças
Resta-me saber que estás em paz
Lembro-me de todo o bem que me fizeste
Lembro-me de que como eras capaz

Que inveja tinham todos na aldeia
De alguém como tu. O meu Avô
De como eu te olhava com respeito
De como me ensinaste o que hoje sou

Não há pedido que se faça para contar
Tanta história, tanto momento, tanto querer
Não há verso ou prosa que encerre
Tanta vontade de viver

Hoje volto a estar triste porque foste
São assim as saudades, tristes e frias
Não voltarás para acalmar as minhas lágrimas
Mas sei que se pudesses voltarias

Por tudo isto e muito mais que guardo
Tenho a esperança de que saibas o que digo
Onde quer que agora tu repouses
Terás sempre em mim o teu amigo

O tormento de não escrever

Sempre que me chega esta vontade
Nem sei se tento parar
Escrevo coisas sem sentido
Rimo frases que quase consigo cantar

Quase choro quando isto me acontece
Comovo-me para parar esta vontade
Fico triste mas as minhas mãos não param
Não paro para pensar. Que ansiedade!

Não leio o que escrevo. Não medito.
Desmancho esta raiva a voar
Há linhas e versos que se amontoam
Não sei o que se passa. Quero parar!

Uff!!! Parece que é agora
Que espasmo brutal que me tomou
Os dedos estão mais calmos, adormecidos
Talvez me deite a e adormeça o que sobrou

Agora é um sonho. Um pesadelo!
Que me ata as mãos e não desarma
Queria estar acordado... a escrever!
Estou amarrado para sempre a esta cama

Tanto quis repousar de tanta escrita
Pedi por isto com tanta convicção
E agora estou tolhido.
Sem palavras ou mãos. Sem opção.

Estou mal deitado e mal dormido
As palavras sobrevoam fazendo inveja
Mesmo quisessem agarrá-las
Agora é o pesadelo que não deixa

Se acordar deste sonho que me atormenta
Se conseguir voltar atrás no meu desejo
Não volto a evitar as palavras
Vou escrever tudo. Tudo mesmo e sem repouso

Vou escrever um livro

Decidi hoje que vou escrever um livro.
Mas este vai ter pontos e acentos. Por opção.
Vai ter regras e tudo o que se exige.
Até já tem nome. Bom... isto talvez não!

Tenho muitas palavras já à espera
Capítulos prefácio e introdução
Vai ter poesia, prosa e mais que haja
É desta que ele nasce. Ou talvez não!

Receio que as palavras não apareçam
Tenho medo de perder inspiração
Mas isso não me vai travar a escrita
Isso é que não!

Vejo-me comparado com os mestres
Taco-a-taco com Eça ou Gedeão
Na montra com Natália, ou Sophia
Pessoa, Camões e até Brandão

Depois haverá também a crítica
As conversas com os Jornais e a televisão
As capas de revista e os autógrafos
Acho que vou gostar deste "glamour". Ou talvez não!

Já penso na fama e no dinheiro
Já penso como me vão abordar
Tenho que começar o quanto antes
Estou neste sonho e tenho medo de acordar